terça-feira, 23 de abril de 2013

É muita beleza nesse sertão!...Viagem para Umarizal - RN

Hoje o céu está mar. Ondas de cor azul-celeste, com nuvens de espuma... Ou espuma de nuvens? De repente uma delas escurece, e gotas de ondas caem do céu-mar. Peixes-pássaros voam ao longe...
As pedras na estrada me dizem que um dia o sertão já foi mar. Um dia já foi mar meu coração. 'Hoje tenho apenas uma pedra no meu peito... Mentira'!... Há uma fonte de água e fogo em minha alma.
(pensamentos rabiscados no caminho para Umarizal)

Vamos "no rumo da venta"! Rumo à Umarizal, primeira cidade do Rio Grande do Norte que o Projeto De Janelas e Luas visita. Levamos conosco um 'GPS Humano': Emanuel Coringa, artista da cidade, que mora em Natal e trabalha em Macau. Ele vai ensinando o caminho e contando histórias de sua terra, de seu grupo e de outros grupos de teatro da região... Aprendi que sua cidade já se chamou Gavião e Divinópolis. Depois virou Umarizal, por causa de uma árvore frondosa que era comum por ali, o umarizeiro.
A paixão com que Emanuel fala do teatro e do sertão, junto com as imagens que vejo na estrada vão me encantando e rabisco 'estupidezes' que aspiram ser 'poetizes' num bloco de papel... 
Os raios de sol por entre as nuvens descendo até a serra parece uma catedral da natureza. Um tronco de árvore parece um homem de chapéu. Tijolos e galhos improvisam pequenos túmulos. Acho que vi umas três ou quatro carcaças de bois pelo caminho... Vi também uma enorme pedra que parecia um boi num restinho de açude... Muitos ex-açudes, muito mato seco... Só não secam os olhos daquela gente, a fé e a força daquele povo... É muita beleza, mesmo em meio a tristeza, nesse sertão.
Passamos por uma placa que dizia: "Santuário Nossa Senhora dos Impossíveis". Nunca tinha ouvido falar nela...
Emanuel conta que na cidade de Patu há a encenação do Auto de Jesuíno Brilhante, o Cangaceiro Romântico. Também nunca tinha ouvido falar nesse homem!... Mas dizem por lá que ele era uma espécie de 'Robin Hood', roubava comboios do governo e distribuía aos pobres. Também era um defensor das mulheres, punindo quem as ultrajasse, ou obrigando homens a casar com aquelas que tivessem abusado.

Quanta história, quanta riqueza! Vontade de escrever tudo, de conhecer mais...

Ficamos hospedadas na casa dos pais de Arlindo Bezerra, ator da Bololô Cia. Cênica, e secretário do Grupo Clowns de Shakespeare. Ele havia me convidado desde o início do projeto, quando soube que Umarizal estava na programação. Mesmo assim, não faltou convite para ficarmos em outras casas... Povo muito hospitaleiro, acolhedor...
Agradeço muitíssimo o carinho dessa família! Obrigada, Seu Arlindo, Dona Francisca, Amanda e sua amiga Aline... agradeço até à Lana (uma poodle muito simpática)! Senti-me em casa, ou melhor, na casa de minha avó (que também é do sertão, de Cajazeiras - PB).
Depois de um café com bolo, fui olhar a rua... Uma menina na casa da frente grita: "Mãe!", e me faz lembrar uma das cenas iniciais de meu espetáculo. A lua está crescente, que é como termina o espetáculo... Sinto que faço parte de tudo ali.

De repente vejo muitos relâmpagos no céu...será que vai chover?...

A oficina aconteceu na Casa de Cultura Popular Palácio do Gavião, na sexta à noite e no sábado pela manhã, com integrantes de dois grupos de teatro da cidade: Cia. Arte e Riso (http://arteriso.blogspot.com.br/) e CulturArte. Corpos dispostos, prontos, conectados com o trabalho, muito respeito, humildade, vontade de aprender, muita paixão pelo teatro...
A tia de Emanuel estava na oficina! Da Paz fazia parte de um grupo de teatro chamado Gaviões de Rua, que existiu por muito tempo em Umarizal. Hoje apóia os grupos dos mais jovens, sua filha também estava lá.

Na sexta à noite faltou energia na cidade, no meio do trabalho! Parar por que? Várias lanterninhas de celulares foram acesas e continuamos... Fiquei imensamente feliz... 
Ao final, me presentearam cantando duas músicas da Cia. Arte e Riso. Aprendi tanto com eles, principalmente sobre comprometimento, sentido de grupo, e sobre a função do artista na sociedade. No próximo final de semana eles vão para Janduís, participar do "Escambito Raízes" (que faz parte de um movimento maior, o Escambo Popular Livre de Rua), organizado pela Cia. Ciranduís (http://ciranduis.blogspot.com.br/). Um movimento que eu também nem conhecia, mas que tem uma história belíssima de "luta e resistência cultural", como eles falam. Estou ansiosa para ir a Janduís também, no primeiro final de semana de maio...

O Gavião Boêmio,
símbolo do movimento Escambo em Umarizal
Chuva! Muita chuva em Umarizal! Que felicidade ouvir alguém dizer: "Ô Mayra abençoada! Trouxe a chuva!"... Se for assim, preciso voltar sempre...

Na Casa de Cultura tem um pé de cajarana que é uma das coisas mais maravilhosas desse mundo! Além de comer várias lá mesmo, eu ainda pedi para trazer uma sacola pra casa!... Hoje fiz suco lembrando de Umarizal, das conversas e risos debaixo do pé de cajarana.

Cajaranas...
Nesse espaço também funciona o Ponto de Cultura "Umari Cultural - Um Rio de Cultura Popular", uma conquista da Cia. Arte e Riso, que tem como objetivo promover e incentivar  iniciativas culturais desenvolvidas na região.

A Casa de Cultura é um espaço fantástico, mas preciso dizer que os responsáveis poderiam olhar de forma mais carinhosa para aquele lugar. O telhado está cheio de buracos, há muitos livros molhados (porque chove lá dentro), espaços sujos, sem lâmpadas, e o auditório onde apresentei tinha muito mofo. Uma pessoa até saiu no meio da apresentação, com uma crise alérgica!

Segunda vez que apresento em palco italiano e cheguei a conclusão que De Janelas e Luas não funciona assim, com o público muito distante. Pelo menos não pra mim... Mas o público parece ter gostado. Me disseram que era algo bem diferente do teatro que eles costumam ver na cidade, geralmente na rua e com muito humor. O auditório estava cheio, e os aplausos e comentários demonstravam respeito e carinho pelo meu trabalho. 
Agradeço ao pessoal da Rádio Fraternidade FM 104.9 que ajudou bastante na divulgação; a Rose Lotte e Emanuel Coringa que fizeram contato com a rádio; a todos que compartilharam o cartaz no facebook, e chamaram familiares e amigos para estarem lá.
Depois da apresentação, aconteceu um Sarau no pátio da Casa de Cultura, os Grupos CulturArte e Arte e Riso apresentaram números de palhaço, poesias, canções, enquanto vendiam lanches para arrecadar dinheiro para a viagem para Janduís. Noite bonita, céu estrelado depois de muita chuva, alfaia, pandeiro, coco de roda, risos, troca, arte...

Na viagem de volta, a paisagem é outra! Tudo verde, açudes parecem reaparecer... Levo uma pequena "feira" de volta pra casa: queijos, feijão verde... E, além das cajaranas, ainda ganhei um pote de doce de gergelim - mais conhecido como 'espécie' - da avó de Emanuel!

Abundância! Umarizal transborda beleza, arte, cajaranas!... Como eu ainda não tinha conhecido tudo isso? E tem muito mais que ainda preciso conhecer!...

Fizemos uma rápida parada em Janduís. Estava acontecendo um torneio de futebol entre os grupos de teatro da região!... Despedi-me dizendo: Esperem por mim, que eu chego já!
Rumo à Janduís!...

Oficina de Preparação Vocal

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Claustrofobia e Caos-presentação em Itabaiana - PB

Terceira viagem do Projeto "De Janelas e Luas" com o patrocínio do Programa de Cultura do Banco do Nordeste / BNDES - Edição de 2012.
Destino: Itabaiana - PB. Terra de José Lins do Rego, de Sivuca, do compositor Adeildo Vieira, da atriz Palmira Palhano, de Jessier Quirino (que nasceu em Campina Grande, mas diz que foi adotado por Itabaiana)...
Sílvia Rodrigues, na produção e na direção, nos leva em um carro alugado. Dessa vez decidimos não confiar no GPS e nos guiar pelo mapa conseguido na internet, nas placas na estrada e, principalmente, nas informações que as pessoas generosamente nos davam pelo caminho.

O contato com o ser humano é o que tem sido mais encantador em nossas viagens (até então). Não encontramos nenhuma pessoa na estrada que não fosse prestativa. Elas param o que estão fazendo, levantam-se de suas cadeiras, e se preocupam em nos ensinar o caminho. Divirto-me imitando o sotaque, os timbres diversos, a forma de ser e de se expressar de cada um. Cada ser é único, por isso é belo.
É bem verdade que alguns 'enfeiam' suas almas com grosseria, prepotência, má educação, falta de respeito...falarei sobre isso mais adiante.
Nossas viagens são sempre "com emoção". Erramos algumas entradas, a noite chegava e a estrada tinha pouca ou nenhuma iluminação. Mesmo assim, chegamos em Itabaiana no horário combinado. Às 19h30 começamos a oficina.
Silvinha participou bastante dessa oficina, e trouxe uma contribuição importante. Voz é Corpo, sempre procurei trabalhar nessa perspectiva. Mas ter uma bailarina/capoeirista trabalhando a parte corporal na oficina é outra história! Os alunos saíram ganhando, porque trabalhamos o ser por inteiro, tudo "junto e misturado": corpo-voz-energia-ação, um ator pronto para entrar em cena.
Fomos recebidas pelo pessoal do Ponto de Cultura Cantiga de Ninar. Agradecemos muitíssimo o carinho e apoio de todos, principalmente de Edglês Gonçalves, que fez tudo que podia para que estivéssemos ali.
O grupo de teatro está parado, assim como em Nova Palmeira (a cidade que visitamos anteriormente). Eles possuem o desejo de continuar, mas não sabem como. Um deles me disse que chegaram a ensaiar até na cisterna de sua casa!

Claustrofobia no hotel! Quarto e banheiro minúsculos...e nenhuma janela!...Como sobreviver? Noite difícil... Manhã de alívio, café da manhã gostoso, oficina muito proveitosa.

A oficina foi curta (como todas têm sido, infelizmente não há como ser diferente), mas intensa. O encerramento foi lindo...cantamos, dançamos, trocamos olhares, vida, energia...Achei que tivesse colocado pra filmar, mas o encerramento não foi filmado. Segundo Silvinha, as coisas mais significativas a gente só vivencia e guarda na memória. Elas geralmente não são registradas pela tecnologia.

Em compensação, filmamos a noite de apresentação...ou melhor, a CAOS-PRESENTAÇÃO!
Fomos informadas de que apresentaríamos na Câmara Municipal, e que haveria outra programação na mesma noite: um grupo de chorinho, o lançamento de um livro, a entrega de certificados... Eu solicitei que o espetáculo acontecesse antes de tudo, pois tinha receio de vincular o nome do Banco do Nordeste a um outro evento. Além disso, gostaria de sair cedo e dormir em João Pessoa, pra visitar minha família. Avisaram-nos então que o espetáculo havia sido marcado para as 19h.
O espaço era bem pequeno, não pudemos montar o chão, colocamos apenas as ribaltas. Também não vesti o figurino. Fiquei estudando o espaço, vendo que teria que diminuir minhas ações.
Esperamos até 19h45 e só haviam chegado os participantes da oficina. Pedi que se sentassem nas primeiras cadeiras e decidi começar.Após o início do espetáculo, um culto também foi iniciado ao lado da Câmara, e um carro começa a tocar forró do outro lado. Os convidados da outra programação começam a chegar e ficam indignados ao me ver apresentando ali. Sílvia está na porta, entrega folders e pede silêncio. Escuta reclamações, pessoas importantes exigem explicações... Meu pequeno público permanece fiel, não tiram os olhos de mim...escolho permanecer fiel a eles também, não parei o espetáculo... Não sei como, mas consegui ir até o final. Foi a apresentação mais difícil da minha vida...espero não passar por isso de novo.
Após o término, Sílvia explica o que viemos fazer ali. Algumas pessoas importantes vieram falar comigo, explicando que não sabiam que meu espetáculo estava marcado para as 19h. Mas não me pediram desculpas. Eu não me importaria com culto, com forró, com a porta se abrindo e as pessoas entrando. Elas poderiam entrar e, ao perceber um espetáculo acontecendo, sentariam e assistiriam em silêncio, ou sairiam e esperariam lá fora. O que me causou profunda tristeza foi a enorme falta de respeito e educação, e nenhuma consideração com o meu trabalho. Quando falei isso para um deles, ouvi a famosa frase: "Você sabe com quem está falando?"... Arrumamos tudo e fomos embora. Os amigos/alunos da oficina nos ajudaram. Com abraços apertados, nos despedimos. 
  
Ouvi mais de uma vez, e de mais de um deles, a seguinte frase: "Itabaiana já teve tudo, e agora não tem nada". Acho que não é bem assim... Acho que Itabaiana tem tudo, mas talvez não dê o devido valor ao que possui.
Queria que meus olhos fotografassem ou filmassem esses dias. A Igreja matriz é belíssima. A tradicional bolacha rainha é maravilhosa. Na loja do Mangaio dá vontade de levar tudo: sinos, chocalhos, apitos, estilingue, tamboretes, sandálias e chapéus de couro... Queria que meus ouvidos gravassem o som do trem passando, dos bois, das conversas nas calçadas...
Queria ter registrado o momento belíssimo vivenciado no final da oficina. Queria ver os artistas que conheci sendo valorizados e desejo voltar em Itabaiana em um outro momento, e ver um grupo de teatro ativo, com o apoio de toda a cidade.


Oficina no Ponto de Cultura Cantiga de Ninar

Apresentação na Câmara:
sem chão, sem figurino, quase sem respeito...
mas com bastante força, até o final.