terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Suspiros nas Janelas


É com muita alegria que coloco aqui os dois primeiros depoimentos, de duas pessoas queridas, sobre o exercício "De Janelas e Luas"!


“Sou eu mesma, como vedes; sim, sou eu aquela verdadeira dispenseira de bens, a que os italianos chamam Pazzia e os gregos Mória. E que necessidade havia de vo-lo dizer? O meu rosto já não o diz bastante? Se há alguém que desastradamente se tenha iludido, tomando-me por Minerva ou pela Sabedoria, bastará olhar-me de frente, para logo me conhecer a fundo, sem que eu me sirva das palavras que são a imagem sincera do pensamento. Não existe em mim simulação alguma, mostrando-me eu por fora o que sou no coração ” (Elogio a Loucura - Erasmo de Rotterdam).


Gracias, Mayra Montenegro, pelo lindo espetáculo. Brilhas lirismos além mar, nos encantos de janelas e luas.


Eunice Boreal (estudante de filosofia e artista que transita pelo mundo do teatro, música, performance, cinema, poesia e muito mais!... Leiam-na no blog: http://www.eunasce.blogspot.com/)


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Parabéns à Mayra Montenegro e sua mãe Eleonora, pelo belíssimo trabalho de conclusão de Mestrado, em Artes Cênicas, Música, e outras artes. Texto, forma, sons, ruídos, tudo muito lindo. Mãe e filha dialogando, passando uma para outra sua arte, seu canto e sua trajetória de palco e sentimento. Saí da apresentação movida à beleza e expressão dos olhos grandes da atriz e da personagem... Lembrei-me de Martha Medeiros e seu poema:


“Minha bisavó reclamava que minha avó era muito tímida
minha avó pressionou minha mãe a ser menos cética
minha mãe me educou para ser bem lúcida
e eu espero que minhas filhas fujam desse cárcere
que é passar a vida transferindo dívidas”


Ana Adelaide Peixoto Tavares (Doutora em Teoria da Literatura pela UFPE e professora do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da UFPB. Leiam-na no blog: http://www.wscom.com.br/blog/anaadelaide)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Entre a fala e o canto...

Sempre que construía partituras vocais em um processo criativo, intuitivamente explorava parâmetros musicais para melhor dizer um texto. Pensava sempre em melodia, ritmo, andamento, dinâmicas de intensidade, timbre...como essenciais e inerentes à fala teatral.
Quando dei início a esta pesquisa de mestrado, encontrei a fundamentação teórica para o que acreditava e fazia. Estudando, fazendo, experimentando, aplicando o conhecimento adquirido...o que antes era feito de forma mais intuitiva, ficou mais forte, claro e preciso. Buscar na música, nos parâmetros tão bem sistematizados pela música, é um precioso recurso para o ator construir sua voz para a cena. É como se ele cantasse, mas sem cantar mesmo...entende?
Descobri que a fala é mesmo música! Naturalmente, a fala cotidiana tem uma melodia - a entonação; tem dinâmicas de intensidade - a acentuação, a ênfase que damos a uma sílaba ou palavra; tem ritmo e tem o timbre de cada voz. De certa forma, pode-se compreender que a fala é formada do mesmo material básico com que é formada a música. O método de educação musical de Carl Orff utiliza a fala como um dos elementos fundamentais de suas propostas pedagógicas. Para Orff, a fala pode ser geradora do ritmo e da música, pode ser ferramenta para ensinar os parâmetros básicos da música.    
Há até quem diga que música e língua possuem uma origem comum. Para o musicólogo F. B. Machê a palavra seria uma música especializada, enquanto a música representaria um pensamento geral, e a poesia se encontraria em um ponto de intersecção entre os dois planos. Murray Schafer também explora criativamente a fala com seus alunos, é só dar uma olhada em seu livro "O Ouvido Pensante", no capítulo intitulado "Quando as Palavras Cantam".
Mas sabe o que acontece? As pessoas foram perdendo essa musicalidade natural da fala ao longo do tempo. Encontrei também muita gente que falava sobre isso. Alguns dizem que é consequência do avanço da civilização. Que quanto mais civilizada se torna uma língua, menos parecida com o canto ela fica, com menos paixão... O filósofo Russeau diz que música e palavra teriam sido inseparáveis num passado longínquo, quando o homem poderia expressar plenamente suas paixões. Mas, com o processo civilizatório, a língua foi perdendo seu traço vital e orgânico, sua música...e passando a ter função mais comunicativa do que expressiva.
Talvez o som em linha reta dos motores das máquinas foi provocando uma voz também em linha reta, com a curva melódica cada vez menor... Schafer fala sobre isso, Elenora Montenegro também.
Sara Lopes diz que a Revolução Industrial, a Revolução Tecnológica, o desenvolvimento da capacidade de ler e escrever e a influência da imprensa diminuíram a importância e a necessidade da voz. A oralidade mal encontra seu espaço numa paisagem sonora mergulhada em ruídos. A linguagem cotidiana no século XX é uma ferramenta ligada ao fazer, ao pensamento racional. As palavras estão desligadas dos instintos, limitando a imaginação e gerando um discurso vazio. Para Lopes, a sociedade precisa de vozes que se esquivem do desgaste do utilitário. Por isso, a importância do teatro, dessa arte que traz, no calor das presenças simultâneas, o poder da voz poética.
Sim, a voz poética... uma voz que é diferente da fala cotiana. Na fala cotidiana, de modo geral, os recursos musicais da voz são pouco utilizados (ou não há o uso intencional e planejado deles). Mas, quando a fala é elemento de representação, quando ela é manifesta em uma comunicação poética, explora intencionalmente todas as potencialidades da voz.
Uma comunicação poética é aquela em que a transmissão e a recepção passam pela voz e pelo ouvido, no encontro entre um locutor e um ouvinte. E sua mensagem, o que é dito, vai além de um discurso comum no qual se preza pelo significado das palavras. No uso comum da língua, a musicalidade não é tão pertinente, basta que o discurso seja entendido. Já no canto, a voz tem total liberdade e não se submete à linguagem, mas, mesmo assim, exalta a palavra, intensifica sua força. O dizer de uma comunicação poética se encontra em algum lugar entre a fala e o canto. Paul Zumthor é quem diz isso, e Sara Lopes vai buscar nele a base para a sua ideia de Vocalidade Poética, e escreve uma tese intitulada "Diz Isso Cantando".
Mário de Andrade disse isso antes deles dois, afirmando que “quando a palavra falada quer atingir longe, no grito, no apelo e na declamação, ela se aproxima caracteristicamente do canto e vai deixando de ser instrumento oral para se tornar instrumento musical”.
E por aí vai...poderia citar diversos outros autores, como Heloísa Valente e Marlene Fortuna, e grandes encenadores do século XX (Stanislavski, Meyerhold, Barba, Peter Brook...)...
Que maravilhosa descoberta! A fala do ator é mesmo música!
Mas dizer cantando...como fazer isso?... Que tal começar estudando música? O que é melodia, o que é ritmo?...Por que um compositor escolheu esses determinados sons pra compor tal música? O que sinto quando ouço essa música? E aí depois a gente pensa em construir a fala como se estivesse compondo música... Melodia, ritmo, dinâmicas de intensidade, a escolha do timbre para cada personagem... Se tem mais de uma voz em cena, já dá pra pensar também em harmonia, textura...
Foi assim que o exercício "De Janelas e Luas" foi construído. Há um "pensamento musical" por trás de cada palavra, frase, movimento, cena...


Ontem aconteceu o primeiro ensaio aberto. Muita emoção, frio na barriga, tremedeira...foi maravilhoso! Muito obrigada a todos que estiveram lá, pelo carinho e pelas preciosas contribuições. Segue abaixo algumas fotos tiradas do vídeo. Espero em breve postar fotos melhores.


P.S: Esse não é um texto acadêmico, por isso não coloquei referência nenhuma. Mas, se alguém se interessar, posso enviar depois.