quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Proposta de Encenação

Contar histórias... Coisa esquecida nos nossos dias e tão essencial para as nossas almas. O sociólogo Mircea Eliade lembra que nos campos de concentração de Stalingrado as pessoas gastavam a sua mísera reserva de alimentos em troca de histórias, de romanças e canções. Essas histórias estavam cheias de mitos, cheias de nostalgias[1]. Essas pessoas já não precisavam de alimentos apenas para os corpos físicos, mas principalmente de um alento em suas almas. Assim nos adverte também o psicólogo Carl Jung quando afirma ser o desenvolvimento da imaginação uma necessidade intrínseca do ser humano, provocando a falta desta uma total desarmonia, desencontro e a perda da própria alma. Segundo ele, os dramas do mundo moderno derivam de um desequilíbrio profundo da psique (tanto individual quanto coletivo), provocado em grande parte pela esterilização crescente da imaginação. Ter imaginação é ver o mundo em sua totalidade. Assim sendo, o primeiro pensamento que me veio à mente ao dar início ao trabalho de montagem com Mayra Montenegro foi a linha primeira pensada pela mesma quando da entrada no Mestrado em Artes Cênicas na UFRN, ou seja, O Canto do Ator, depois melhor definida como “Um Ator que Canta um Conto – A Utilização de Parâmetros Musicais na Voz do Ator”.  
Há vários anos venho exercitando/investigando essas imagens sonoras. Vários autores, várias imagens, muitas linhas de pesquisa. A voz teatral, poder-se-ia assim dizer, é a voz que traz na sua origem primeira o germe da ação, do querer dizer mais do que simples palavras, do extrapolar o dia a dia comum, do exercitar-se além, do recriar o ambiente sonoro com a finalidade de atingir determinado parâmetro de efeito ou comunicação. Ultrapassar as letras simbólicas, transformadas em palavras e frases, com o gesto teatral, a música, a dança, o silêncio, a expressão do olhar, o canto da voz, a intenção, o arfar, a pulsação da palavra - coração, o como dizer essas imagens e transformá-las em ação. A voz - ação que assume cor, cheiro, luminosidade, energia.  Esta proposta de direção vem justamente contribuir com a investigação da atriz no seu trabalho de construção de imagens, poemas e sonoridades, explorando a sua “música pessoal” (histórias de vida, memórias latentes, corpo físico e emocional), reestruturando e organizando esses materiais para a conta- ação da história final. Fazendo uso de alguns adereços mínimos e essenciais, o foco principal é a expressividade do corpo e da voz que canta um conto. Com o público bem próximo da intérprete, não necessitando de um palco convencional, esperamos que possa essa história também penetrar na alma de todo(a)s que assistirem, fazendo com que as reflexões possam enriquecer o imaginário de cada um(a), assim como foi de extrema riqueza este processo para a nossa vida.

Eleonora Montenegro.



[1] ELIADE, Mircea. Imagens e Símbolos: ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. Tradução de Sonia Cristina Tamer São Paulo: Martins Fontes Editora Ltda, 1996.