quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Sobre as janelas e as luas...

Eu só sabia que queria fazer algo que fosse bem simples. Um exercício em que eu pudesse olhar diretamente para as pessoas. E que as pessoas pudessem olhar diretamente para mim também. Sabia que queria que fosse poético, lúdico, lírico... Mas que doesse também. Doesse por tocar no fundo da alma, nas coisas escondidas, bem guardadas e esquecidas.

Gabriela, minha filha, ganhou o livro “O Pequeno Príncipe”, e eu estava lendo um trechinho para ela todas as noites. Fazia tanto tempo que eu havia lido esse livro, e entrar em contato com ele novamente foi como renascer, voltar a ser criança, redescobrir a criança adormecida em minha alma. Foi aí que veio a ideia de uma personagem como o pequeno príncipe, alguém que visse beleza e importância nas coisas simples, uma sonhadora... Uma lua nova.

Depois veio a segunda personagem. O oposto da primeira. Tristeza, desilusão, angústia. Coisas que fazem a gente esquecer a criança de dentro... Uma lua cheia. Desespero, loucura...uivar para a lua...

Por último, pensei em alguém que contaria a história das duas. Uma contadora de histórias. Alguém em outra fase da vida... Lua crescente e minguante, equilíbrio.

Fases da vida... Fases da mulher... Fases da lua... Três personagens, três janelas por onde olhar a vida.

Comecei buscando a energia, o corpo e a voz de cada personagem. O que elas têm a dizer? Com que voz(es) contar suas histórias?

“De Janelas e Luas” é um exercício dramático, resultado prático de minha pesquisa de mestrado (em andamento na UFRN) intitulada “O Ator que Canta um Conto – A Utilização de Parâmetros Musicais na Voz do Ator”, sob a orientação da Prof. Dra. Vera Rocha e co-orientação do Prof. Dr. Eli-Eri Moura (UFPB).

O teatro é uma arte que reúne conceitos de diversas linguagens artísticas, ou conceitos que são inerentes às diversas linguagens artísticas também pertencem ao teatro. Conceitos do universo musical, por exemplo, podem ser organizados na composição de diversos fenômenos artísticos, especialmente o teatro. Cada cena, cada gesto, cada palavra precisa de pulsação, andamento, ritmo, de melodia, de dinâmicas de intensidade, de timbres diversos, harmonia, textura, dentre tantos parâmetros tão bem utilizados e sistematizados pela música.

A música, ou elementos do discurso musical estão presentes nas estéticas teatrais de grandes encenadores ocidentais do século XX, como Constantin Stanislasvski, Vsevolod Meyerhold, Jerzy Grotowski, Peter Brook, Eugenio Barba e Robert Wilson, tanto na preparação do ator como nas encenações. Além da presença da trilha sonora ou canção, há um “pensamento musical” que permeia o teatro feito por esses encenadores.

A arte do ator não está apenas no que ele diz, mas em como ele diz. É necessário, portanto, o saber dizer, rechear as palavras de todas as possibilidades e atrativos que as transformem em ação, gesto vivo e intenção clara. Os parâmetros musicais são apresentados na pesquisa como uma possibilidade de recurso para a criação vocal. Nesta pesquisa, considera-se o ator como “um autor de música dramática: a que ele compõe, mesmo sem tomar nota, para as palavras daquele que leva o nome de autor (Étienne Decroux). Como um compositor de música escolhe cada som para compor sua canção, assim o ator escolhe os sons de sua voz e seus gestos para a cena, a fim de transmitir esta ou aquela expressão/emoção ao público.

Em “De Janelas e Luas”, busco explorar as potencialidades da voz, tendo como base a manipulação de parâmetros musicais, como melodia, dinâmicas de intensidade, pulsação, andamento, ritmo, pausas e variações de timbres.

O texto é uma colagem de textos próprios, de Eleonora e Wilma Montenegro e de poetas como Mário Quintana e Cecília Meireles. A direção é da Prof. Ms. Eleonora Montenegro.

Em breve, mais notícias...

Em breve... "De Janelas e Luas"

Fotos do francês Laurent Laveder